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29 de Dezembro de 2010
JACKSONVILLE, Flórida — Pesquisadores da Clínica Mayo em Jacksonville, Flórida, descobriram que uma molécula, que há muito tempo se pensava ser uma supressora de tumores benéfica — e, com potencial para ajudar no desenvolvimento de drogas contra o câncer — parece agir como um oncogene em alguns tipos letais de tumores do cérebro.
A caderina epitelial (caderina-E) é uma proteína conhecida por sua habilidade de manter a adesão das células cancerosas, impedindo-as de se dividirem e provocar uma metástase. Mas, com base em suas descobertas, publicadas no site do jornal PLoS ONE, os cientistas sugerem que a caderina-E também pode funcionar como um oncogene em certos tipos de câncer. Um oncogene ajuda a promover o desenvolvimento e o crescimento do câncer.
Eles dizem que as descobertas explicam as observações enigmáticas e recentes sobre a expressão da caderina-E no câncer de mama, por exemplo. Embora a perda da caderina-E é geralmente considerada uma precursora da metástase, os pesquisadores também descobriram que, na maioria dos casos de câncer de mama já disseminado, a expressão da caderina-E é mantida. Paradoxalmente, tumores do ovário também produzem, segundo se descobriu, mais e mais caderina-E, conforme crescem.
"Essa descoberta surpreendente pode nos compelir a mudar nosso entendimento sobre a caderina-E", diz o principal pesquisador do estudo, o biólogo especializado em câncer Panos Z. Anastasiadis, Ph.D. "Até agora, todos nós pensávamos que, se há perda da função da caderina-E em um tumor, isso representa um movimento em direção à metástase. E isso faz sentido, porque em 50% dos casos de câncer não se verifica uma expressão da caderina-E e isso leva aos piores prognósticos.
"Mas, agora, nos parece que a expressão da caderina-E em um tumor podem ser responsável pelo crescimento descontrolado das células, se a proteína não estiver funcionando como deveria", diz.
O biólogo Panos Anastasiadis foca sua pesquisa nos fatores biológicos envolvidos na metástase do câncer. Nesse estudo, ele e sua equipe de pesquisadores, que inclui cientistas das unidades da Mayo na Flórida e em Minnesota, examinaram a expressão da proteína em células cancerosas de glioblastoma. O glioblastoma é o tipo mais comum e também o mais perigoso de câncer cerebral.
"Nosso interesse é entender as vias que induzem o glioblastoma a ser tão invasivo", ele diz. "O problema com esse tipo de câncer é que os tumores podem ser muito agressivos e células cancerosas isoladas podem se espalhar por todo o cérebro", explica.
Entre outras proteínas, os pesquisadores examinaram as caderinas, de cuja família cerca de 20 se expressam no cérebro — mais do que em qualquer outro órgão. Elas são proteínas transmembrânicas, que exercem papéis críticos na determinação de como as células se ligam umas às outras em um tecido. Os pesquisadores esperavam encontrar quantidades significativas de caderina neural (caderina-N) nos tumores, mas não de caderina-E, que se expressa em tecido epitelial e não em tecido normal do cérebro.
No tecido epitelial, a perda de caderina-E normalmente representa uma mudança no comportamento da célula, conhecida por transição epitelial-mesenquimal (TEM). Nesse processo, as células que estavam fortemente ligadas umas às outras se soltam, devido a perda de caderina-E e de outras proteínas — incluindo outras integrantes da grande família de caderinas — tornando possível a migração de células individuais para fora da concentração do câncer. Drogas destinadas a conter a TEM estão em fase de desenvolvimento, diz o biólogo.
Em vista desses fatos, os pesquisadores afirmam que o que descobriram foi uma surpresa para eles. Embora se esperava encontrar a caderina-N na maioria das linhas de células em câncer de cérebro humano — e a caderina-N é potencialmente oncogênica — em algumas também se verificou a expressão da caderina-E. Eles também descobriram que o câncer cerebral com células que expressavam a caderina-E agia mais agressivamente do que o câncer cerebral que não expressava aquela proteína. Os pesquisadores, então, validaram suas descobertas em estudos com animais. Finalmente, eles realizaram um experimento que consistia em remover a expressão da caderina-E das células de glioblastoma e descobriram que essas células tinham uma capacidade reduzida de se mover e cresciam a um ritmo mais lento.
"A caderina-E, expressada em glioblastomas, não cumpria a sua função de manter as células ligadas. Em vez disso, ela promovia o crescimento e a migração de tumores", diz Panos Anastasiadis. "Isso é totalmente o oposto ao que sabíamos sobre a caderina-E. Por alguma razão, a expressão da caderina-E nas células cerebrais está associada ao comportamento agressivo da célula e a prognósticos insatisfatórios", ele explica.
As descobertas sugerem que "as caderinas, na condição de uma classe completa de proteínas, devem ser estudadas mais profundamente", ele diz. "A caderina-E, expressada em glioblastomas, funciona como um oncogene e ela pode agir da mesma forma em casos de câncer de mama, de ovário e de outros tipos de tumores encontrados no corpo humano", afirma.
"Saber o que provoca a mudança na função da caderina-E, de uma supressora de tumor a um oncogene, e descobrir como contê-la será uma missão crítica", declara o biólogo da Mayo. "Mas o ponto principal é que não podemos mais considerar a caderina-E apenas como uma supressora de tumor", conclui.
O estudo foi financiado pelos Institutos Nacionais de Saúde de Estados Unidos, pela Fundação para a Acelerar a Cura do Câncer do Cérebro e por uma verba de treinamento da Fundação Daniel. Co-autores do estudo das unidades da Clínica Mayo na Flórida e em Minnesota incluem Laura Lewis-Tuffin, Ph.D.; Fausto Rodriquez, M.D.; Caterina Giannini, M.D., Ph.D.; Bernd Scheithauer; Brian Necela, Ph.D.; e Jann Sarkaria, M.D. Os autores declaram que não há conflitos de interesse no estudo.
Para mais informações sobre tratamento de câncer na Clínica Mayo de Jacksonville, Flórida, contate o Departamento de Serviços Internacionais pelo telefone 904-953-7000 ou envie um email para intl.mcj@mayo.edu.
A Clínica Mayo é o primeiro e maior centro de medicina integrada do mundo. Médicos de todas as especialidades trabalham juntos no atendimento aos pacientes, unidos por um sistema e por uma filosofia comum, de que "as necessidades dos pacientes vêm em primeiro lugar". Mais de 3.700 médicos, cientistas e pesquisadores, além de 50.100 profissionais de saúde de apoio, trabalham na Clínica Mayo em Rochester (Minnesota), Jacksonville (Flórida) e Phoenix/Scottsdale (Arizona). Juntas, as três unidades tratam mais de meio milhão de pessoas por ano.
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