19 de Março de 2009
JACKSONVILLE, Flórida — Nos níveis em que a dose de radiação é aplicada nos exames por imagem do coração, tais como uma tomografia computadorizada (TC) cardíaca ou um exame da medicina nuclear, o risco potencial de efeitos danosos da radiação ionizante é pequeno. No entanto, o nível exato de risco não é conhecido e, por isso, as pessoas sem sintomas de doença cardíaca devem pensar duas vezes antes de realizar ou concordar com esses tipos de exames cardíacos. Essa é a conclusão de um comitê médico consultivo, constituído pelo Conselho de Cardiologia Clínica e pelo Conselho de Radiologia e Intervenção Cardiovascular da Associação Americana do Coração. Um cardiologista da Clínica Mayo de Jacksonville, Flórida, presidiu o comitê.
Na edição online de 2 de fevereiro do jornal Circulation, o comitê médico afirma que a realização de exames cardíacos em que a radiação ionizante é usada é, em todos os casos, uma opção que deve ser feita com muita prudência e não é recomendada para pessoas sem dores no peito ou que apresentem sintomas de baixo risco para doença do coração.
"Há entre os médicos uma falsa sensação de segurança de que a dose de radiação a ser aplicada em cada paciente e os potenciais riscos à saúde que decorrem dessa aplicação podem ser determinados com precisão", diz o cardiologista e Ph.D., da Clínica Mayo de Jacksonville, Thomas Gerber.
A incerteza e a interminável controvérsia estão centradas na discussão sobre como conectar as baixas doses de radiação ionizante, aplicada no paciente nos exames médicos por imagem, à possibilidade de desenvolvimento de câncer, diz o cardiologista.
"Não há dúvidas de que altas doses de radiação, tal como as resultantes das bombas atômicas lançadas sobre o Japão, estão associadas ao câncer; mas há muita discussão, não resolvida, sobre se baixas doses de radiação representam ou não – e em até que grau — riscos de câncer", ele explica.
Essa é uma questão importante para a cardiologia, porque a tomografia computadorizada do coração se tornou muito popular e o seu marketing direto para o público vem sendo largamente realizado, acrescenta o cardiologista. Esses exames podem revelar se as artérias cardíacas de uma pessoa têm placas ou não. Mas, apesar desses dispositivos produzirem "imagens muito bonitas", não há comprovação de que a detecção precoce das placas irá ajudar os médicos a tomarem decisões que irão ajudar seus pacientes a viverem mais tempo", afirma Thomas Gerber.
Em 2006, as tomografias computadorizadas do coração representaram apenas 1,5% de todas as TCs feitas na população dos Estados Unidos. "A expectativa é de que a quantidade de exposição à radiação, atribuível a imagens de TCs do coração, irá aumentar rapidamente, conforme a tecnologia melhora e se torna mais disponível", diz o médico. "Entretanto, os benefícios de realizar esses exames em pacientes sem sintomas ainda não estão claros; e os pacientes devem saber disso".
Por outro lado, os autores desse estudo dizem que exames por imagem apropriados, destinados a diagnósticos, tais como a TC cardíaca, a fluoroscopia e os exames da medicina nuclear, não devem ser evitados no caso de pacientes que apresentam os sintomas de doença cardíaca, somente por causa de preocupações relacionadas à dose de radiação. "Se uma pessoa apresenta os sintomas, o benefício do uso desses testes para a prescrição de um tratamento é maior que os possíveis riscos", afirma o cardiologista.
A Associação Americana do Coração pediu ao comitê para explicar aos médicos como a dose de radiação aplicável a pacientes é determinada, como uma forma de ajudar os cardiologistas a entenderem e a explicarem os riscos e os benefícios dos procedimentos por imagem que usam a radiação ionizante.
Os autores declaram que a medida mais usada da dose de radiação, chamada dose efetiva, "não é tão precisa quanto as pessoas gostariam que fosse". Como a dose de radiação não leva em conta a idade, as variações na anatomia humana ou incertezas — como a sensibilidade dos órgãos e tecidos à radiação, "a dose efetiva se aplica genericamente a diversos tipos de exames por imagem, mas não a cada paciente, individualmente", diz Thomas Gerber.
Para colocar a questão em perspectiva, dizem os integrantes do comitê médico, o risco de uma pessoa morrer de câncer, associado à radiação ionizante de um TC cardíaco, é menor que o risco de ela se afogar ou de um pedestre morrer atropelado por qualquer meio de transporte.
Além disso, os autores citam um cenário hipotético em que, se todas as pessoas na faixa etária de 50 a 55 anos nos Estados Unidos (cerca de 1,8 milhões de pessoas) fossem submetidas, a cada cinco anos, a exames do coração através de uma TC cardíaca, até que completassem 70 anos, o crescimento estimado da quantidade de mortes por câncer, nesse período de 20 anos, seria de cerca de 43.000. Entretanto, se os médicos pudessem usar as informações desses exames para impedir pelo menos 10% das mortes inesperadas, causadas por doenças do coração, ocorreriam 35.000 mortes a menos por ano.
"O ponto principal é que os médicos precisam orientar bem os pacientes, para determinarem se um exame do coração por imagem é a providência mais apropriada em cada caso", diz o cardiologista. "Os médicos precisam entender e ter a capacidade de pesar cuidadosamente os riscos desses exames no caso de cada paciente", declara. Sobre a Mayo Clinic.
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A Clínica Mayo é o primeiro e maior centro de medicina integrada do mundo. Médicos de todas as especialidades trabalham juntos no atendimento aos pacientes, unidos por um sistema e por uma filosofia comum, de que "as necessidades dos pacientes vêm em primeiro lugar". Mais de 3.300 médicos, cientistas e pesquisadores, além de 46.000 profissionais de saúde de apoio, trabalham na Clínica Mayo, que tem unidades em Rochester (Minnesota), Jacksonville (Flórida) e Scottsdale/Phoenix (Arizona). Juntas, as três unidades tratam mais de meio milhão de pessoas por ano.
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