22 de Maio de 2007
JACKSONVILLE, Flórida — Pesquisadores da Clínica Mayo de Jacksonville, Flórida, descobriram que a análise do nível de proteínas amilóides no sangue de pessoas idosas pode ajudar a identificar quem tem risco iminente de desenvolver um distúrbio cognitivo leve e doença de Alzheimer. Segundo estes pesquisadores, essa descoberta, publicada na edição de março do jornal Archives of Neurology, é um importante avanço na pesquisa para o desenvolvimento de um exame de sangue simples e barato, que ajude a identificar pessoas com risco para doença de Alzheimer - assim como, hoje, medir o índice de colesterol no sangue identifica rapidamente quem pode vir a sofrer de uma doença cardíaca.
De acordo com os pesquisadores, o exame de proteína amilóide no sangue ainda não está pronto para ser aplicado em escala, uma vez que continuam os estudos para determinar sua precisão. Entretanto, sabe-se que este exame pode ser especialmente eficaz se os seus resultados forem analisados em combinação com outros fatores de risco, como a presença do gene da apolipoproteína E4 (apoE4) e o próprio envelhecimento.
"Mesmo aplicado isoladamente, o exame identificou pessoas com três vezes mais probabilidade de desenvolver distúrbio cognitivo ou doença de Alzheimer, num período de três a cinco anos", afirma o médico Neill Graff-Radford, principal autor do estudo e chefe do Centro de Pesquisa de Doença de Alzheimer, da Clínica de Distúrbios da Memória da Mayo de Jacksonville. "No caso de ser realizado também o exame do status da ApoE, a combinação de seus resultados torna o prognóstico ainda muito mais preciso", afirma Graff-Radford, que também coordena o trabalho de desenvolvimento desse tipo de exame de sangue. "Por exemplo, os pacientes que fizeram parte do estudo que apresentaram resultado positivo tanto no exame de amilóide quando no teste do gene da ApoE4 tinham 20% de chance desenvolver a doença de Alzheimer dentro de três a cinco anos".
O médico Steven Younkin, co-autor do estudo e do grupo de pesquisa básica da Clínica Mayo de Jacksonville, acrescenta que a descoberta do exame de amilóide é um passo importante, mas que será realmente ainda mais útil quando forem descobertos tratamentos preventivos da doença. "Ninguém quer saber se irá desenvolver a doença de Alzheimer se não houver uma terapia para controlá-la", afirma. "Por isso, ao mesmo tempo em que estamos aperfeiçoando esse tipo de exame de sangue, pesquisadores desta de outras instituições estão pesquisando tais terapias. Nosso objetivo final é poder identificar pessoas no grupo de risco, para, então oferecer terapia apropriada", afirma.
O estudo para desenvolvimento do exame de proteina amilóide no sangue é resultado de um trabalho conjunto de pesquisadores da Clínica Mayo de Jacksonville, Flórida (onde grande parte da pesquisa básica vem sendo conduzida) e da Clínica Mayo de Rochester, Minnesota, que tem a missão de desenvolver um estudo longitudinal, com milhares de participantes, que identifique possíveis biomarcadores para a doença de Alzheimer.
Muitos cientistas acreditam que uma causa que contribui significativamente para o desenvolvimento da doença de Alzheimer é o depósito da proteínas beta-amilóide (βA) no cérebro, que, agregadas, formam uma "placa", contribuindo para interromper o pensamento normal e os processos da memória. A forma mais comum de βA num cérebro normal é a βA40, mas de 5% a 20% das pessoas apresentam o βA42, uma forma um pouco mais alongada de proteína, cujo formato a torna mais propensa a emaranhar-se com outras fibras βA.
A gênese do exame de amilóide da Mayo data de 1995, quando Younkin ajudou a demonstrar que os genes responsáveis pelo surgimento precoce da doença de Alzheimer sempre aumentam a produção de βA42, o que sugere que essa proteína tem papel fundamental no desencadeamento da doença. Os pesquisadores da Mayo descobriram, então, que a quantidade de βA42 em relação à quantidade de βA40 no sangue (proporção βA42/βA40) pode ser um biomarcador de doença iminente.
Esse estudo é o primeiro a indicar, de fato, que esta relação entre proteínas pode identificar pacientes idosos brancos, em risco iminente de apresentar distúrbio cognitivo leve e doença de Alzheimer, conforme afirmam os cientistas. Ao dividir as amostras de sangue dos pacientes em quartis, da menor à maior proporção (de βA42/βA40) de cada um, os pesquisadores descobriram que os pacientes na faixa do menor quartil tinham três vez mais probabilidade de desenvolver distúrbio cognitivo e doença de Alzheimer do que os pacientes no quartil maior. No caso dos participantes do estudo no quartil mais baixo, a incidência da doença foi de 10%, em três anos; entre os que estavam no segundo quartil, essa incidência só foi atingida em cinco anos. No caso dos que estavam no terceiro e quarto quartis, o índice de 10% só foi atingido em cerca de oito anos.
"Isso sugere que o tempo entre o depósito e o acúmulo da beta-amilóide é de 10 a 15 anos, quando, então, os sintomas começam a se manifestar", diz Younkin. No caso de pacientes com mais de 80 anos, cuja relação βA42/βA40 estava abaixo da média, a incidência de distúrbio cognitivo leve e doença de Alzheimer foi de 20% em cinco anos; em pacientes mais novos, foi de aproximadamente 5%. . Estudos complementares, com milhares de participantes, estão em andamento e os pesquisadores concentram-se em entender melhor o curso da relação βA42/βA40, afirma Graff-Radford. "Se estiver baixa aos 82 anos, como estava aos 75? Queremos voltar no tempo e determinar o curso dessa proporção. Isso será provavelmente possível com um estudo longitudinal maior, já em andamento".
O estudo foi financiado pelos Institutos Nacionais de Envelhecimento dos Estados Unidos e pelo programa de Pesquisa de Alzheimer Robert H., Clarice Smith e Abigail Van Buren, da Clínica Mayo. Outros co-autores do estudo: Ronald Petersen, Bradley Boeve, David Knopman, Robert Ivnik e Glenn Smith, da Clínica Mayo de Rochester, Minnesota, e Julia Crook, John Lucas e Linda Younkin, da Clínica Mayo de Jacksonville, Flórida.
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