1 de Abril de 2006
Poderá ser um padrão de tratamento para pacientes com síndrome de POEMS no futuro JACKSONVILLE, Flórida — Quando a americana Cynthia Farmer, mãe solteira de 3 filhos, 53 anos, fala sobre "POEMS" (que é o termo inglês para "poemas"), ela não está se referindo aos versos de Robert Frost, seu poeta favorito; ela se refere a seu tipo raro de discrasia sangüínea, um transtorno dos elementos celulares do sangue, que os médicos da Clínica Mayo de Jacksonville, Flórida, dizem que pode ser tratado com quimioterapia de alta dose e um transplante autólogo de células-tronco hematopoéticas. Depois de lidar com pelo menos 100 casos similares, os médicos da Mayo adquiriram uma experiência significativa no tratamento de pacientes com síndrome de POEMS.
POEMS é um acrônimo dos cinco sintomas mais comuns da doença:
Esse tipo de câncer é raro — mas o de Farmer é ainda mais raro. Os primeiros sinais da doença apareceram em 1986, quando ela tinha 33 anos. A idade média de pacientes com POEMS é 51 anos; 60% deles são homens. Não é hereditária, nem contagiosa. Muitos dos sintomas, como fatiga, entorpecimento, dores, febres e diarréia, se assemelham a outras doenças mais corriqueiras e, por isso, os pacientes dificilmente buscam tratamento quando aparecem.
O médico de Farmer, o oncologista Geraldo Colon-Otero da Clínica Mayo, diz que casos de POEMS são tão raros que muitos médicos sequer estão informados sobre essa síndrome. "Eles nunca viram alguém com essa doença", ele observa. "Também não existe muita coisa escrita sobre isso. Muitos pacientes passam muitos anos sem que a doença seja diagnosticada".
Ela buscou ajuda médica, pela primeira vez, no final da década de 80, em Virgínia (estado dos EUA). Mas nenhum diagnóstico detectou a doença. A saúde dela piorou de tal maneira que ela ficou praticamente cega. Aconselhada por seu médico de então, ela procurou a Clínica Mayo de Jacksonville, para uma segunda opinião. Em 1990, ela se consultou com Colon-Otero que, imediatamente, identificou os sintomas da POEMS. E essa foi a primeira vez que Farmer ouviu falar da doença.
Apesar de vários tratamentos experimentais terem se seguido ao diagnóstico, a qualidade de vida da paciente continuou a declinar. "Não conseguia segurar uma caneta para assinar meu nome, nem andar, nem me alimentar", ela conta. Foi então que o oncologista sugeriu um outro experimento: quimioterapia de alta dose, seguida de transplante de células-tronco. As células a serem usadas seriam colhidas no próprio corpo de Farmer, num procedimento conhecido cientificamente como transplante autólogo de células-tronco.
Embora destinada a destruir células cancerosas, altas doses de quimioterapia também danificam células da medula óssea e células-"semente" da medula óssea - estas também conhecidas como células-tronco hematopoéticas. Essas células-tronco hematopoéticas - ou "sementes" - são vitais para o organismo, porque elas são a fonte das células sangüíneas que transportam o oxigênio, combatem infecções e previnem sangramentos. Antes da aplicação de quimioterapia de alta dose, para destruir células que geram proteínas anormais, os médicos colheram células-tronco, formadoras de sangue, da própria paciente. Após a terapia, essas células-semente foram devolvidas a ela através de um transplante, de forma que sua medula óssea pudesse voltar a crescer e a produzir células sanguíneas.
"Se algum dos pacientes com síndrome de POEMS que tratamos com transplante de células-tronco vai se curar ou não ainda é uma incógnita", reconhece Colon-Otero. "Sabemos, entretanto, que a maioria dos pacientes que se submeteram a esse transplante melhoraram dramaticamente". A experiência da Clínica Mayo em transplante de POEMS - a maior série divulgada no mundo - foi liderada pelos médicos Angela Dispenzieri e Alvaro Moreno-Aspitia, ambos da Mayo. Apesar do tratamento para POEMS não ser padronizado, os médicos da Clínica Mayo recomendam que a quimioterapia de alta dose e o transplante de células-tronco sejam considerados como uma opção terapêutica para pacientes com síndrome de POEMS. Essa terapia não é apropriada para todos os pacientes, uma vez que é preciso considerar os sintomas apresentados caso a caso.
A qualidade de vida de Cynthia Farmer melhorou substancialmente. Desde o transplante, ela obteve um segundo mestrado, está procurando trabalho de conselheira de reabilitação, recuperou a mobilidade, mesmo que ainda limitada, com a ajuda de uma andadeira e está desfrutando o seu novo papel de avó.
A Clínica Mayo exerce a liderança na pesquisa e diagnóstico da síndrome de POEMS. Os pacientes são tratados por uma equipe multidisciplinar de médicos, que inclui neurologistas, edocrinologistas, oncologistas de radiação, fisioterapeutas e outros.
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