28 de Abril de 2006
JACKSONVILLE, Flórida — Pesquisadores da Clínica Mayo de Jacksonville, Flórida, realizaram um estudo com pacientes de Mal de Parkinson, no qual compararam casos dessa doença originários de causas genéticas, com casos da mesma doença provenientes de causas desconhecidas. Nos dois grupos, descobriram que homens contraem a doença duas vezes mais que as mulheres, que o tremor é o sintoma inicial em cerca de metade dos casos e que a doença afeta, quase sempre, mais um lado do corpo do que o outro. O neurologista Ryan Uitti da Clínica Mayo, pesquisador que liderou o estudo, diz que as descobertas encorajam a continuação das pesquisas sobre as causas genéticas do Mal de Parkinson.
A doença de Parkinson é um distúrbio do sistema motor, que afeta cerca de um milhão de pessoas nos Estados Unidos. São característicos da doença o tremor, a rigidez, a lentidão de movimento e a instabilidade. Por muito tempo se pensou que ela era causada por fatores ambientais, tais como exposição a pesticidas.
Até agora, entretanto, os pesquisadores já descobriram seis mutações genéticas que causam a doença de Parkinson em cerca de 2% dos casos. Eles não sabem quais são as demais 98% das causas da doença. "Esses números tornam a pesquisa das doenças genéticas ainda mais relevantes para as outros 98% dos casos da doença esporádica, como a chamamos", diz Uitti. "Pode ser que haja alguns componentes genéticos ou, pelo menos, essas causas podem compartilhar alguns dos mesmos mecanismos determinados pelos genes".
Em um trabalho publicado na edição de abril de 2006 pelos Arquivos de Neurologia (Archives of Neurology), Uitti e seus colegas sugerem que a maior incidência do Mal de Parkinson em homens decorre, mais provavelmente, de alguns fatores protetivos que as mulheres têm, em vez de algum fator ambiental ao qual os homens poderiam estar mais expostos. Por exemplo, o hormônio estrogênio pode ter uma ação que protege as mulheres contra o desenvolvimento da doença de Parkinson, reduzindo a incidência entre elas. "Pode haver alguma outra influência genética, característica apenas das mulheres", diz Uitti. "Alguns outros componentes ligados ao cromossomo X (cromossomo sexual feminino) podem também ter uma participação na história".
Uitti e seus colegas relataram previamente que os sintomas da doença de Parkinson são predominantemente assimétricos em casos de doença esporádica que estudaram. Eles se surpreenderam muito ao descobrir que o mesmo acontecia em 90% dos casos da doença com origem genética que estudaram. "Considerei que, realmente, os sintomas da doença de Parkinson deveriam se manifestar nos dois lados do corpo", Uitti explica. "Se há uma causa genética para um problema neurológico, em vista do fato de que os genes povoam todas as células, tanto do lado direito quanto do lado esquerdo do cérebro, por que os sintomas da doença se manifestam de forma diferente em cada lado do corpo?", ele pergunta.
A assimetria dos sintomas pode ter alguma coisa a ver com os fatores que determinam se um indivíduo é destro ou canhoto, por exemplo. "Essa é uma área que ainda está totalmente aberta a especulações", diz Uitti. "Uma delas é a de que os circuitos de um dos lados devem estar completamente conectados. Da mesma forma que um lado do cérebro controla a linguagem na maioria das pessoas, é também um lado do cérebro que torna um indivíduo destro ou canhoto - pode ser que os circuitos melhor conectados sejam mais vulneráveis às causas das doença de Parkinson", ele considera. Na outra ponta do espectro do pensamento, está a idéia de que o uso excessivo de um circuito motor pode, de uma forma similar à cãibra que ocorre na mão de alguém que escreve muito (espasmo manual), danificar o circuito de um lado do cérebro e predispor o desenvolvimento de sintomas predominantemente de um lado do corpo.
Os pesquisadores estudaram 40 pacientes, membros de duas grandes famílias e com um histórico de doença de Parkinson de origem genética conhecido, e 1.277 pacientes diagnosticados com doença de Parkinson esporádica. Essa série de casos de doença esporádica, que Uitti diagnosticou entre 1 de julho de 1994 e 30 de junho de 2004, é a maior série de pacientes conhecida. Há relativamente poucas pessoas, cujas doenças de causa genética se assemelham ao que é verificado em casos de doença esporádica. Por isso, dizem os pesquisadores, mais estudos, envolvendo uma quantidade maior desses pacientes, são necessários para se avaliar as atuais descobertas e se descobrir os mecanismos responsáveis por essas características comuns.
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