3 de Março de 2006
JACKSONVILLE, Flórida — O vírus (chamado "influenza") causador da gripe aviária pode se espalhar por outros continentes, incluindo o americano. Entretanto, a sua disseminação pelo mundo só pode se tornar uma pandemia (uma epidemia que atinge uma parcela considerável da população mundial), se esse vírus H5N1 passar por uma mutação, que o torne transmissível de pessoa a pessoa - hoje, ele se transmite de ave a ave ou de ave a pessoa. Como é um vírus próprio de aves, o organismo humano dispõe de pouca ou nenhuma defesa contra ele. Pesquisas de vacinas e estudos clínicos de tratamento estão em curso, para se enfrentar o pior, mas podem se passar alguns meses entre o início da disseminação e as ações de combate eficaz à doença. A saída é conter a disseminação, afirma o diretor da Divisão de Doenças Infecciosas da Clínica Mayo de Jacksonville, Flórida, Salvador Álvarez, nesta entrevista.
Nas últimas semanas, o vírus H5N1 (que causa a gripe aviária) se propagou pela Ásia, África e Europa. Ele pode se propagar pelo continente americano?
Salvador Álvarez - Existem diversas variantes do vírus "influenza" da gripe aviária, que podem causar tipos diferentes de doenças nas aves. Esses vírus podem infectar galinhas, perus, patos, gansos, faisões ou qualquer outra ave. Já está comprovado que as aves migratórias são um repositório natural para essas variantes do vírus. E que esses tipos de vírus, embora não sejam necessariamente mortais para as aves migratórias, são sempre fatais para as aves domésticas. A migração das aves para diversos cantos do mundo explica a expansão geográfica das ocorrências do vírus A/H5N1 [ou influenza H5N1 que causa gripe do tipo A]. Com base nos padrões migratórios, é possível, sim, que as aves silvestres venham a transmitir a infecção a aves domésticas também no continente americano.
Como ocorre a disseminação?
Salvador Álvarez - As aves migratórias, que portam o vírus, contaminam as aves locais, nas regiões para onde migram. Então o vírus, que é altamente contagioso entre as aves e quase sempre fatal, pode se disseminar entre a população local de aves domésticas. As aves domésticas podem ser contaminadas pelo vírus da gripe aviária pelo contato direto com as aves silvestres infectadas e, então, disseminar a contaminação entre as suas semelhantes. Também podem ser infectadas pelo simples contato com superfícies ou materiais (como excrementos) contaminados pelo vírus.
Seria necessária a adoção de medidas preventivas adicionais no continente americano?
Salvador Álvarez - Existem muitas organizações na maioria dos países sul-americanos, na área da saúde e na da agricultura, bem como a Organização Panamericana de Saúde, que estão encarregadas de exercer uma operação de vigilância rígida, para controlar a presença do vírus H5N1 na região. Se o vírus for detectado, alguns protocolos garantem a essas organizações permissão para eliminar as aves infectadas e procurar impedir o contato delas com os seres humanos, uma vez que essa é a maior possibilidade de contaminação de humanos. São muito poucos os casos documentados de infecção de pessoa a pessoa, até agora.
É possível que esse vírus venha a ser a causa da próxima pandemia?
Salvador Álvarez - O vírus da influenza A/H5N1 é um dos subtipos de vírus da "influenza A", que causa infecções principalmente nas aves e é altamente contagioso e letal para elas. De uma maneira geral, o vírus H5N1 não afeta os humanos, embora existam casos registrados de pessoas infectadas por ele. Normalmente, esses casos são decorrências de contato direto ou próximo das pessoas com aves domésticas infectadas pelo vírus ou com alguma coisa contaminada pelo vírus.
Até o momento, a contaminação pelo vírus H5N1 de pessoa a pessoa tem sido limitada e a disseminação não foi além de uma pessoa para outra. No entanto, como o vírus da influenza tem a habilidade de passar por mutações genéticas, a comunidade científica está preocupada com a possibilidade do H5N1 adquirir, eventualmente, a capacidade de se transmitir, com maior facilidade, de humano a humano, o que levaria à disseminação entre indivíduos de uma mesma população e, depois, para outras comunidades. Como não é comum que esses tipos de vírus infectem seres humanos, existe muito pouca - ou nenhuma - proteção no sistema imunológico do organismo humano contra ele. Se o vírus H5N1 obtivesse a mutação capaz de transmissão pessoa a pessoa, nesse momento, teríamos uma situação de pandemia de influenza no mundo. Ninguém pode predizer se vai ocorrer ou quando vai ocorrer uma pandemia de influenza. De qualquer maneira, especialistas de todo o mundo estão atentos, acompanhando de perto a situação na Ásia e na Europa, para o caso do vírus H5N1 começar a se disseminar mais facilmente e de forma mais extensa entre pessoas. Conter a disseminação, é o caminho inicial mais viável para se combater uma pandemia.
Quão indefeso estamos para o caso do vírus chegar à mutação que infecta facilmente os humanos?
Salvador Álvarez - Como disse anteriormente, o organismo humano dispõe de pouca ou nenhuma defesa imunológica contra esse tipo de vírus, exatamente porque, geralmente, ele afeta as aves e não os seres humanos. Por essa razão, o ser humano está mais indefeso contra o vírus H5N1 e, provavelmente, irá desenvolver doenças severas, se o contrair.
Diz-se que levaria de dois a três meses para se desenvolver uma vacina eficaz contra um vírus H5N1 mutante, que afetasse os seres humanos. E também que a vacinação de toda a população do mundo seria uma utopia. O que o senhor acha?
Salvador Álvarez - No presente momento, não há vacina disponível, em escala comercial, para proteger os humanos contra o vírus H5N1, encontrado na Ásia e na Europa. No entanto, já estão em andamento, desde abril de 2005, vários programas de desenvolvimento de uma vacina contra o H5N1. E também estão sendo realizados estudos clínicos para testar a eficácia e a segurança de vacinas para humanos. O vírus H5N1, que já causou doenças em humanos e até morte, em alguns casos na Ásia, é resistente a medicamentos como Amantadina e Rimantadina, dois medicamentos antivirais que já foram usados no passado para combater a gripe. Existem outros medicamentos antivirais, como o Oseltamavir e o Zanamivir, que podem ser eficazes no tratamento da gripe causada pelo vírus H5N1. No entanto, é necessário se fazer estudos adicionais para comprovar a eficácia deles, porque existem relatos de casos isolados no Vietnã, onde o vírus se mostrou resistente a um desses medicamentos.
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